sábado, 11 de novembro de 2017

As janelas da memória



Aprender a ter garra, determinação e metas de vida. Desenvolver uma rotina saudável para trabalhar, dormir, ter lazer e viver bem. Aprender a fazer escolhas e saber que não há céus sem estrelas e tempestades. Dormir o suficiente para repôr as energias físicas e psíquicas gastas no dia anterior. Elaborar projetos de vida que controlam a emoção. Saber que sonhos não são desejos e eles são intenções superficiais. Planejar o futuro: pensar a médio e longo prazo. Superar a necessidade neurótica do mecanismo de recompensa imediata e compreender que sonhos sem disciplina produzem pessoas frustadas; disciplina sem sonhos produz autômatos, que só obedecem a ordens. Você teria coragem de subir num avião e fazer uma longa viagem, sabendo que o piloto tem poucas horas de voo, ou seja, quase não tem experiência? Você relaxaria se soubesse que ele desconhece os instrumentos de navegação? Dormiria se ele não tivesse habilidades para se desviar de rotas turbulentas, com alta concentração de nuvens e de descargas elétricas? Eu fiz essas simples perguntas para cerca de mais de cem tripulantes das companhias de aviações, quando trabalhava com turismo. É óbvio que todos responderam que se sentiriam completamente desconfortáveis. Muitos nem sequer ousariam pisar nessa aeronave. Então, surpreendi-os ao afirmar que embarcamos diariamente na mais complexa das aeronaves, comandada por um piloto frequentemente despreparado, mal equipado e mal educado e, portanto, sujeito a causar inúmeros acidentes. A aeronave é a mente humana e o piloto é o eu.

Se você entrar num avião de última geração, ficará perplexo com a quantidade de instrumentos de apoio à navegação. Mas do que adiantam tais instrumentos se o piloto não souber usá-los? Do que adianta o eu ter recursos para dirigir o psiquismo ou o intelecto se, durante o processo de formação da personalidade, não aprender o básico sobre esses instrumentos, nem desenvolver as minimas habilidades para operá-los? Estamos na era primitiva da compreensão sobre os papeis e a estruturação da mente. Suas funções mais básicas não são trabalhadas pelo sistema acadêmico. Nosso eu nem sequer exerce controle de qualidade sobre os pensamentos perturbadores e antecipatórios, sobre a ansiedade, a impulsividade, a intolerância, o radicalismo, o extremismo. Não qualifica emoções fóbicas, angústia, raiva, ódio, inveja, cióme, irritabilidades e impaciência.


Você conhece as emboscadas produzidas pelos fenômenos psíquicos? Seu eu é um bom protetor da sua emoção? É qualificador dos seus pensamentos ou os deixa soltos, esperando que se dissipem espontaneamente? Tem consciência de que a abertura ou fechamento das janelas da memória podem produzir uma masmorra psíquica mais dramática do que a de um presídio de segurança máxima? Uma empresa, por menor que seja, precisa de um gerente financeiro e de gestão de qualidade de seus produtos e processos, caso contrário, poderá ir à falência. Mas por incrível que pareça, a mais complexa das empresas, a mente humana, não possui um executivo maduro um gerente atuante. Não é à toa que grande parte das pessoas tem uma serie de sintomas psíquicos e psicossomáticos que indicam e até gritam que a “empresa psíquica” está indo à bancarrota. E elas quase nada fazem para reciclar sua vida.

O grande desafio das escolas do ensino fundamental à universidade não é preparar pessoas para o mercado de trabalho, mas prepará-las para o mercado psíquico. Ninguém brilhará no teatro social se primeiramente não brilhar como pensador no teatro psíquico. Os brilhantes pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles, Spinola, Hegel, Marx, Freud, Einstein, dentre outros, não tiveram a oportunidade de estudar os papéis do eu. Eles intuitivamente construíram brilhantes ideias, mas a compreensão do eu como gestor psíquico ficou obscura. Se estudarmos os papéis do eu e potencializarmos suas habilidades, teremos mais possibilidades de reciclar nossa história.

Seremos menos deuses e mais humanos. Teremos menos necessidade de evidência social e mais necessidade de contemplar as coisas simples. Seremos menos assaltados pela necessidade neurótica de poder e teremos mais necessidade de contribuir para os outros no animato. Julgaremos menos e abraçaremos mais. Cobraremos menos de nós mesmos e dos outros e nos doaremos mais. Seremos mais flexíveis e menos radicais. Falaremos mais de nós mesmos, sem medo de sermos tachados de loucos, insanos, débeis. Seremos mais ousados para libertar o imaginário e propôr ideias e menos servos da timidez. Seremos menos vitimas das angústias, fobias, inseguranças e mais promotores do júbilo e da liberdade. Pensaremos mais como espécie e menos como indivíduos.

Freud e alguns teóricos do passado diziam que nos primeiros anos de vida, em especial até os cinco, seis ou sete anos, vivenciamos os traumas que serão a base dos transtornos psíquicos no futuro. E esses traumas não poderão ser modificados, a não ser por processos terapêuticos. Mas à luz da compreensão do eu como autor da própria história e do sofisticadíssimo processo de construção dos pensamentos, podemos adoecer em qualquer época, mesmo tendo vivido uma infância saudável. Podemos ser frustados nas mais diversas áreas por não aprendermos a lutar por nossos projetos de vida.

A vida é sempre uma janela aberta para colher e ver muitas coisas que vêm da memória. Essa janela tem um poder de observar o mundo através da imaginação.

Autor (M. P. S.) 

3 comentários:

  1. A memória é capaz de armazenar tanto as experiencias boas quanto as ruins,pode nos servir de aliada e pode nos atrapalhar na evolução.

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  2. A filosofia e uma area extensa a qual por mais que tentamos entender sempre teremos perguntas a serem feitas e as principais que iniciam o entendimento do eu såo de onde vim para onde vou o que sou e o que estou fazendo no planeta terra.qual a minha missao em especial com as pessoas as quais me deparo na minha caminhada.como estamos num mundo palpavel e concreto Naõ consigo confiar no que nao sinto segurança...

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  3. Nossa memória é algo inexplicável cabe à nos definir o que é bom ou ruim para nós. Edina de lagoa Santa MG

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